Publicado em Crônica

A moça do balcão

Era o primeiro dia das férias. E tinha ido passar a primeira semana na casa da minha vó, como de costume. O sábado amanhecia ensolarado. O dia estava conveniente para fazer algumas compras no centro da cidade. Minha vó, há um tempo, já havia reclamado do quão antigo era o celular dela, falava coisas do tipo “isso aqui não tá pegando nem rádio direito” ou mesmo “esse troço não pega nem o ‘zap zap’ e eu pensava “maldita mídia!”. Sim, me chateava em ver o quanto o apelidinho do aplicativo whatsapp ficou popular.

Minha vó, naquele dia, decidiu que finalmente compraria um celular novo. Fomos em várias lojas, até ela achar uma com várias opções para ela ficar escolhendo. Antes de irmos ver os celulares, ela quis olhar a loja toda, como quem acaba de receber o salário, com intuito de fazer algum gasto desnecessário para sair feliz com mais de uma sacola. Mas era dia de jogo do Brasil, as lojas fechariam cedo, então ela teve que se apressar e logo fazer o que pretendia desde o início: comprar o celular novo.

A moça do balcão parecia meio ‘aéria’, como quem não queria estar lá, e sim preparando a casa para receber amigos no dia do jogo, infelizmente ela precisava do emprego e tinha que cumprir com seu papel. Afinal numa loja grande como aquela, o chefe provavelmente seria daqueles que tem pulso firma para dar bronca. Ela nos cumprimentou com “bom dia” e respondemos o mesmo, enquanto não desviávamos os olhos da vitrine. No fundo, eu tinha uma certa pena dela, por conta da minha vó que não entendia muito de celular e estava disposta a perguntar milhares de coisas até que a loja fechasse.

Saí de perto um pouco e fui olhar a parte de decoração, sempre havia coisas inéditas lá e gostava de imaginar como ficariam na minha casa daqui uns dez anos, quando eu tivesse um emprego bem remunerado para comprá-la, porque por enquanto é imaginária. Dei umas cinco voltas enquanto ouvia música para não sentir tanto a demora da minha vó com a moça do balcão. Quando retornei, ouvi a moça explicar pra minha vó que o celular tinha o preço muito bom, pegava tudo, inclusive Google. Não, mas ela não falou como você provavelmente leu, ela pronunciou ‘gógli’, pasme. Talvez ela não tivesse feito nenhum curso para estar naquela função, talvez ela nem tivesse tempo para assistir televisão e saber a pronúncia certa. A única certeza que eu tinha era que eu não confiava mais nela.

Tentei explicar para minha vó que o celular só funcionava internet se ela colocasse crédito. Ela não deu importância, porque de acordo com a moça do balcão, o celular “pegava tudo, inclusive Google”.  Eu fiquei um tanto irritada, sabia que quando chegássemos em casa, ela iria reclamar pra mim sobre o celular não pegar internet sem crédito. Dito e feito. As pessoas mais velhas tendem a não dar muita importância ao que os mais jovens falam, a menos que estejam uniformizados. Imaginava que mesmo depois disso ter acontecido, ela iria continuar confiando mais em pessoas do balcão do que em mim.  Percebi que valia mais a pena apenas acompanhar ela nas compras do que discutir com ela sobre o que ela deve comprar. Isso não é problema, é costume e é pra isso que netos servem, não é?

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