Publicado em Crônica

Ossos

violins-and-heaven

Diziam que ela era apenas um cartaz na parede vinho. Sorrindo para você. Ela podia ser qualquer coisa que você quisesse, ela podia ser a garota falsa que todos odeiam, podia ser a pessoa chata que todos evitam, podia ser a garota inspiradora que todos queriam ser. Ela também poderia inspirar você. Sim, ela era apenas um cartaz na bilheteria para aqueles que passavam em um flash, apenas um cartaz desbotado.

Estavam muito apressados, vindo de lá para cá na neve, recobertos de voracidade e culpa, de amor insano, do prazer profano, vidas roubadas. Todos queriam ouvir o que ela tinha para dizer, o que ela tinha para lhes dar. Eles queriam esquecer-se dos problemas, queriam uma fatia não só de entretenimento, mas de arte, de sentimento. Acomodaram-se em seus lugares, suspensos no ar sob a projeção do universo no teto de vidro. Estrelas brilhavam acima deles, trazendo-lhe belas mensagens, mensagens de esperança, ainda que implícitas. Demorou alguns segundos para o céu se apagar, sinalizando o início da apresentação.

Por trás da fina cortina luminosa estava ela, andando de um canto ao outro. Ninguém acreditaria se ela contasse, mas estava muito nervosa. Não era sobre estar longe de casa. Cada apresentação a estrangulava de uma maneira assustadora, porque cada uma era única, eram pessoas diferentes, mentes diferentes, corpos estranhos. Ela, porém, já havia feito aquilo, várias e várias vezes, em todos os planetas do quadrante. Mas o medo de deslizar demais o arco ainda era constante, o medo de decepcionar os espectadores, assim como decepcionar a si mesma. Ela havia acabado de se tornar a personagem de um de seus contos.

As cortinas abriram e ela respirou fundo, apertando seu Stradivarius entre os dedos. Caminhou pelo palco, enquanto os aplausos camuflados da plateia lhe abraçavam, cantarolou uma melodia mentalmente. Olhares atentos fixados nela, aguardando seu sucesso, aguardando seu erro, aguardando o momento de reclamar ou de se emocionar.

De repente, a melodia parou, assim como os pés dela. A música começou suave e pouco incorporada, como se não fosse uma boa noite para tocar. Então, naquele momento, mesmo que não parecesse adequado, lembrou-se do cheiro dos livros, das flores, do vento, como estar livre de uma prisão não significava estar livre de suas próprias grades. Isso fluiu de seu coração para seus dedos, trancafiou-a em sua alameda de cores e sussurros profundos, algo que apenas ela via assim. A dor… Percorrendo seus ossos, escorrendo das cordas do instrumento, mas também a necessidade, a compulsão. Estava se entregando, sentindo que o futuro lhe sorria, que os sonhos estavam se tornando reais. Que aquilo era bem melhor que nos contos de fadas.

Mal percebeu quando a música acabou, mas se deu um espaço longo para respirar. Foi o suficiente para que mais uma chuva de aplausos surgisse. Ela não era a melhor, não sabia se um dia chegaria perto de ser, mas estava feliz. Porque as pessoas que mais cedo tinham problemas pareciam não apenas tê-los esquecido, a música lhes deus algo a mais, algo que seria descoberto com o tempo, algo que ela também descobriria caso decidisse continuar.

Havia passado de uma garota em um cartaz, um rosto em um bilhão, um alguém como todos os outros. Ela agora era aquilo que estalava as almas. Uma voz indecifrável. Uma pintura de incontáveis significados, de incontáveis paisagens. Não era apenas uma garota talentosa e metida como muitos julgavam. Ela era mais do que aquilo que adorava fazer, mais que alguém coberto pela luz do holofote.

Aqueles que a conheciam bem sabiam que ela podia ser alguém muito bom, não importava se estava dançando com você na chuva ou conversando sobre seus problemas em uma viagem longa, ela estava lá por você, mesmo que às vezes se distraísse desenhando uma árvore em tons vermelhos ou uma pessoa risonha que encontrou. Você também estaria lá por ela se a conhecesse. Ela apenas desejava carinho sincero, nada mais que palavras verdadeiras. E então ela poderia lhe fazer sentir, dentro ou fora de um concerto, mais que apenas um monte de ossos.

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7 comentários em “Ossos

  1. Eu não sei se é porque eu estou sentimental, por motivos óbvios, mas Natan, você é um escritor em tanto! Que orgulho eu tenho de te ter como bff cof cof cof. Isso parece com uma crônica que fiz do dia que toquei violino. Me lembrei daquele dia, me lembrei de você, me lembrei dos motivos que me levam a tocar e me rendi às lágrimas. ❤
    ps: pra quem só aprendeu tocar o começo de brilha brilha estrelinha, você sabe descrever uma violinista melhor que eu u.u haha

    1. Eu estou tentando imaginar como você está agora. Eu também tenho estado bem sentimental, acho que assim surgiu esse texto, foi um frenesi de sentimentos. ❤ Você não sabe a alegria que sinto ao ouvir isso, por mais que eu não concorde tanto e ache que você tem mais futuro nisso. E bem, você é uma pessoa muito especial, então eu também me orgulho. Muito obrigado. Hahaha Agora que parei para reler aquela crônica parece mesmo. Eu me sinto cumprindo o objetivo se o que escrevi te fez ter tantas lembranças quanto eu, eu me inspirei em boa parte no dia da sua apresentação, ela sempre retornava para minha mente. E saber que o texto te fez chorar foi emocionante, simplesmente por desacreditar que alcançaria alguma faísca de sentimento. 🙂 Hahaha Ei! Mas aprender aprender foi muito difícil, tá legal? A descrição surgiu em parte da reflexão sobre a paixão que os artistas sentem, ela está lá, apertando você. Foi um tanto confuso e em determinado momento eu tive que me imaginar em um palco, catalisar todos os sentimentos possíveis. Então, é isso, muito obrigado mesmo, por tudo… E até mais.

^-^ Me conta o que você achou?

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