Publicado em Crônica

Nos Braços do Futuro

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[Escrevi ouvindo Still da Daughter]

Naquele dia, no frio da noite, estive questionando seriamente o que a vida almejava de mim. Que prazeres ela esperava que eu tivesse e por quais mágoas ela pretendia me fazer passar. Por quantas voltas completas de relógio ela ainda me faria sofrer por questões banais, comprar um carro, arrumar um emprego e formar uma bela família.

Toda vez que visualizava o amanhã eu caia sobre meus joelhos, encarando os ponteiros do relógio, arrancando de mim toda a vitalidade possível, dizendo que de alguma maneira o tempo estava acabando. Eu achei que teria de decidir tudo, escrever um roteiro e segui-lo até o fim para ter a vida perfeita da qual estavam falando na televisão. Porque imaginei que era isso que a vida queria, ser desenhada e pintada de maneira magnífica.

As pessoas ao meu redor haviam me cercado de esperanças, algo que me deixou feliz durante um momento. Elas sorriam para mim e me envolviam em seus braços quentes, contando suas histórias de vida, fazendo-me compartilhar as minhas, fazendo-me ficar viciado. Elas haviam sido encaixadas no meu roteiro, porque de acordo com o que eu sabia era essencial ter amigos. Meus olhos começaram a ficar fundos com as mentiras que evitei perceber. As pessoas mentiam sobre o que sentiam em situações adversas e depois até seus sorrisos me causavam enjoo.

Demorou a notar que eu havia escolhido péssimos atores para encenarem a peça. Foquei-me nos outros planos, os que realmente me trariam alguma paz interior, nem que por meio do dinheiro. Planejei tudo cuidadosamente e esperei para poder executar. Mas eu não tinha nenhuma experiência, meu curriculum estava vazio e não importava o quanto eu soubesse,  eles precisavam de declarações impressas.

Sim, mais uma vez eu caí sobre meus joelhos, observando a avenida cinzenta pela janela, desviando da mesinha cheia de papéis amassados. Desta vez eu não devaneei. Qualquer outro sentimento estava encolhido na raiva. De certo modo não eram as pessoas quem estavam mentindo para mim. Eu estava.

Escrevi um roteiro rígido e sentimental demais, ninguém se adequaria a ele. Descobri que existem várias maneiras magnificas de se pintar um quadro e que eu simplesmente não precisava seguir nenhuma. Porque a vida não espera nada de mim e pensar no futuro era apenas a maneira mais idiota de aguentar o presente, me afastando dele. Eu deveria aprender a lidar comigo mesmo e assim aprender a ser alguém melhor. Por fim, decidi jogar aquele maldito roteiro na lareira e aproveitar o frio.

“Vou embrulhar meus ossos

E deixá-los fora desta casa

Na estrada”

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