Publicado em Crônica

Atrás do sim

[Escrevi ouvindo Blame do Calvin Harris]

Estava eu, finalmente, em frente a maior loja de materiais de construção da minha cidade. Tentei aproveitar meu reflexo na porta de vidro por uma fração de segundo antes dela abrir. Checar se estava mesmo tudo certo, a roupa, o cabelo e maquiagem que fiz numa tentativa de parecer mais velha. Mas, na verdade, era eu mesma ali. Eu poderia sentir isso, não poderia fingir que não estava nem um pouco tímida e assustada com a vida real.

Não era exatamente ali que eu gostaria de estar entregando meu currículo. No entanto, eu precisava começar de alguma forma. Dar o primeiro passo. É claro que eu queria começar por uma construtora bem grande, acompanhar uma obra de perto e ter orgulho de ter feito parte da equipe que trabalhou nela. O que é mais difícil de conseguir, uma vez que não se conhece o dono. E, de qualquer forma, eu estava empolgada com a ideia de negociar materiais e pôr em prática o que estudei no meu quarto semestre.

Então, eu entrei na loja. Passei pelo corredor dos revestimentos cerâmicos e tive aquela estranha sensação de que meus passos estavam sendo acompanhados por olhares curiosos. Não era a primeira vez que eu estava entregando um currículo, nem a primeira que aquele tipo de olhar me intimidava. E logo lembrei da razão que me levou a estar lá tentando: eu sabia que era boa nisso. Talvez, aqueles olhares fossem só neura minha e, se não fosse, tudo bem!

Ao subir as escadas para o setor de recursos humanos, onde aceitam as entregas de currículos, também lembrei da minha vó me esperando no carro. A indignação dela ainda era pertinente. Ainda não se conformou que eu iria usar um macacão no lugar de um jaleco. No fundo, ela só estava triste por eu não estar realizando o sonho dela. Por outro lado, eu também entristeci por ela ser contra o meu. Ela sempre diz que eu era sempre fui delicada demais para isso, que isso não me traria um bom futuro, esse tipo de coisas. Coisas que, às vezes, até me aborrecem.

Muitas lembranças subitamente começaram a vir. Lembrei de quando eu conheci The Sims e decidi que construiria prédios nas cidades, como fazia no jogo. Foi uma decisão boba na hora. Ninguém deu muita importância para isso porque ninguém dá tanta importância para o que uma criança diz. A questão, é que de tudo o que eu já quis ser, nada me empolgou tanto quanto a ideia de fazer cálculos sinistros, fazer uma cidade crescer verticalmente, desenhar os sonhos das pessoas para transformá-los em algo concreto, literalmente e assinar tudo isso.

Enfim, me deparei com o setor. Eu pensei que seria mais difícil chegar lá e entregar. A moça do balcão não quis saber nada sobre mim. Nem leu. Apenas deixou numa pilha com muitos outros currículos. Não seria ela quem selecionaria. Então, ela educadamente me desejou sorte e avisou que eu entreguei num período bom. Isso foi o suficiente para me fazer descer novamente pelas escadas com um sorriso disfarçado.

Acabei percebendo que nem sempre as escadas são para “elevar a dor”. Às vezes, elas são como as janelas: dão o tempo e paz suficiente para pensar e se redimir. É por isso que prefiro os degraus a elevadores. Eu precisava daquele tempo, eu precisava ser mais confiante e ser feliz com mais essa escolha.

Voltando para o carro, minha vó nem demorou a sugerir que eu mudasse de ideia. Isso me tirou um pouco do sério, mas não retruquei. Era só a primeira entrega daquele corrido dia. Talvez, nem ali fosse o meu começo. Mas, ao menos, eu comecei de alguma forma, dei algum passo e venci o medo do não. Como sempre diz meu professor de matemática “o não, você já tem, agora só precisa correr atrás do sim”. E é isso mesmo o que importa: correr atrás do sim.

“A culpa está queimando em mim

Esse não é um sentimento que eu possa conviver”

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Autor:

E-mail: blairpttsn@gmail.com Defenda o que você acredita e tenha orgulho por quem você é!

Um comentário em “Atrás do sim

  1. O nervosismo ao entregar o primeiro currículo é de matar :/
    Depois, consegue-se assimilar a ideia de que há um universo profissional a ser trabalhado, e que, mais cedo ou mais tarde, será preciso explorar esse mundo, dando o melhor de si. Isso se torna muito mais simples quando a área de trabalho em questão seja algo agradável aos olhos dx candidatx. Trabalhar com o que se gosta é algo insanamente bom 🙂

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