Publicado em Comportamento, Crônica

Era “só gracinha”?

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Hoje cedo, hoje mesmo, eu levei um grande susto. Entenda: eu estava saindo de casa, atrasada para a aula no cursinho. Em pleno feriado, sim. Talvez essa seja a crônica mais bruta que vou escrever aqui. Mas ninguém vive só de amor. Continuando… Eu estava com muito sono, cansada, estressada da escola. Porém, no fundo, estava conformada.

Tomei um café rápido com a minha vó, para não perder o costume e também não ir de estômago vazio. Sou a pessoa mais atrasada do mundo. Não recuso café. Ah, apressada, desci as escadas, abri o portão com uma pera na mão direita segui. TODAVIA, olhei para trás antes. Eu preciso fazer isso TODAS as vezes antes de seguir em frente na rua, sozinha. Tinha um cara na esquina. Ele estava de bicicleta. Seguiu olhando-me. MERDA!

O que faço agora? Será que voltei a ficar com mania de pensar que estou sendo perseguida? Vou encostar mais no muro. Ele chegou muito rápido até mim. Mandou-me parar. Depois disso não relevei mais nada do que ele dizia. ESTAVA MUITO NERVOSA. Na última vez que passei por isso, fui assaltada. Meu Deus, o que este homem quer? PORRA, EU SÓ QUERO CHEGAR NO CURSINHO.

Olhei rápido para o outro canto da rua. Tinha outro moleque de bicicleta vindo. Não pensei outra vez e saí correndo de volta pra casa, AOS GRITOS. Essa é a pior parte de ser mulher. Nós nunca sabemos quais são até que ponto um homem doente pode chegar. Poderia ser assalto, poderia ser outra coisa. Eu não ficaria ali esperando que ele contasse-me o que era.

Droga, eu acordei os vizinhos. Minha cachorrinha Melanie foi a primeira coisa que vi quando cheguei em casa. Eles desceram e foram atrás do cara. Ele trabalha como alguma coisa numa casa próxima da minha. “Mal entendido”! O QUÊ?

Quer dizer que um cara na rua que NEM ME CONHECE, aborda-me de bicicleta, manda eu parar e isso não é nem um desrespeito? Quer dizer que ele não era nem suspeito? Quer dizer que eu precisava ter ficado ali pra que ele fosse culpado de algo.

Ele justificou pro pessoal de casa que era “SÓ” GRACINHA. E isso é “SÓ”? Muito pra ele seria um estupro? Um assalto? O medo que eu senti não desejo nem pra filha ou mãe dele. Sejamos humanos. Nós, feministas, não queremos só direitos iguais. Nós também queremos respeito, seja para as doutoras, seja para as prostitutas. Queremos sair de casa e sermos quem somos, sem medo de sermos mulheres, sem medo de sermos justamente os alvos frágeis.

Depois disso, finalmente peguei ônibus pro cursinho. Outro cara, dessa vez mais feio e acabado fala “OI, LINDA”. QUE ÓDIO! QUE NOJO! Isso porque eu sempre procuro vestir a maior parte parte do meu corpo e ser o mais desleixada possível quando ando sozinha. Isso não é liberdade. Nós vivemos presas dentro de casa, dentro daquilo que somos, dentro de ideologias, para ver essas inconsequentes soltos em todas as esquinas. Queremos justiça, NÃO QUEREMOS ouvir suas gracinhas.

Não vou editar essa crônica. Vou postar mesmo da forma como vomitei ao arrancar essas lembranças repugnantes da memória. Vamos socializar essa discussão. Tirar do tabu. Denunciar da forma que está ao nosso alcance porque nenhum relato é tão irrelevante quando se trata de desrespeito às mulheres. Unidas temos mais voz nesse país “abençoado” por Deus.

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Autor:

E-mail: blairpttsn@gmail.com Defenda o que você acredita e tenha orgulho por quem você é!

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