Publicado em Crônica

Querida, Darah

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Quando eu era criança, eu tinha uma melhor amiga. Acho que posso chamá-la assim. Afinal de contas, para mim, ela era a melhor pessoa do mundo. Lembro de como eu era perversa e prometia sempre ajudá-la a arrumar seu quarto. Mas sabia que quase nunca dava tempo. Só uma coisa que ela nunca deixou: eu pentear seus cachos.

Meus pais elogiavam-na todas as vezes que voltarmos de uma visita da casa de seus pais. Eles reproduziam tudo o que a mãe dela contava-lhes. Sobre como ela tirava boas notas, ajudava em casa e era educada. Ninguém tinha dúvidas de que ela teria um futuro brilhante. Realmente, ela era muito esforçada.

É engraçado como, a medida que crescemos, afastamo-nos das pessoas. Até daquelas que um dia fizeram tão parte de nossas vidas. Depois de alguns anos, encontramo-nos na adolescência. Esbarramo-nos no Twitter e, logo, convidei-lhe a vir na minha casa.

Lembro que isso foi no dia 10 de janeiro de 2013, porque faltava uma semana para o meu aniversário. Nós conversamos bastante nesse dia sobre nossos crushs da saga Crepúsculo, cantamos no Karaokê, fizemos videochamadas no Skype, falamos das nossas próximas metas – que incluía o Ifap e futuras graduações – só não lembro se comemos brigadeiro.

Uma semana depois, ela nem compareceu. Eu já estava acostumada com a ausência dela e tentei não me importar. Mas, naquela noite, ela começou a enviar vários tweets dizendo que passei no processo seletivo. Foi um incrível presente de aniversário. Eu mal acreditei. Em menos de um mês, já estávamos estudando na mesma instituição. Ela, como uma irmã mais velha – porque seria estranho compará-la com uma mãezona – que me apresentou tudo. Eu me sentia a maior sortuda por tê-la ao meu lado.

Bom, também foi com ela que fiz meu primeiro projeto científico, de Matemática. Eu lembro que eu precisei amadurecer muito pra acompanhar o ritmo dela. Às vezes, ela fazia umas observações que me deixavam infeliz. Eu relevava. Depois disso, uma grande muralha imaginária afastou-nos novamente.

Início desse ano, meu pai veio falando do quanto ela queria ser caloura em Medicina. Isso soava tão estranho pra mim, porque, apesar de não conhecer 100% dela, eu poderia apostar todas as minhas medalhas que isso não fazia parte da lista de sonhos que ela havia me citado. Eu fiquei perguntando-me o que havia acontecido com a menina mais determinada que eu conhecia? Será que ela mudou tanto desde a última vez que conversamos?

Como se não bastasse, o que anda deixando-me aflita é que ela continua sendo o espelho que meus pais querem que eu reflita. Eles matricularam-me no mesmo cursinho e avisaram logo “Ela foi esperta, passou em medicina. Você tem tudo pra fazer o mesmo”. Isso tem deixado tão angustiada, porque caiu de paraquedas um sonho, que nem era meu, pra realizar. 

Primeiro eu pensei que teria que abrir mão de toda minha paixão por humanas para estudar algo que eu nem sou tão boa. Eu cheguei no cursinho e não sabia nem como era o processo de fecundação. Zigoto, gens, espermatozoides eram tudo a mesma coisa, pra mim. Todos os dias tento correr atrás do prejuízo e isso deixa-me triste por perceber que eu não sou boa o suficiente para tirar uns 750 no ENEM.

Depois de algumas semanas, conheci o pessoal do cursinho. Todos eles perguntaram se eu a conhecia. E quando eu dizia que sim, eles respondiam sempre uma declaração de amor por ela. Sem dúvidas, ela continua sendo uma pessoa cativante. Agora está morando em Belém. Está cursando a concorrida Medicina. E eu ainda não tenho certeza se ela está feliz por isso.

Antes de sua despedida dela da cidade, eu fiquei de participar dos vídeos que lhe homenageariam. Acabei não participando. Falaram pra eu escrever alguma coisa. Eu não sabia o que escrever. Então, depois de alguns meses, eu escrevi isso. Bom, eu também gostaria de dizer que sinto falta de ter uma “irmã mais velha” pra ajudar com as coisas da vida, como: “como faz agradecimentos?”, “qual o site para se inscrever?” ou “DARAH, EU CAI NA LAMA, ME AJUDA” haushua.

Espero que todos esses seus tweets reclamando da vida sejam só uma hipérbole, um drama ou uma brincadeira (porque sim, eles deixam-me preocupada). Além disso, eu espero que você sempre lembre que ninguém tinha dúvidas de que você poderia chegar no lugar que quisesse. Sucesso nessa nova fase, Darah. Sei que você tem muitos amigos, mas eu estou aqui pro que você precisar (por mais que você não me leve a sério na maioria das vezes, faz parte).

Para: [leia o título] ❤

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Autor:

19 anos. Acadêmica de Relações Internacionais e apaixonada por histórias de amor.

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