Publicado em Crônica

O amor ficou

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Não dedico esta crônica aos que ainda escrevem cartas ao Papai Noel. Afinal, os traços modernistas não são nada além da realidade de um coração solitário. Já dizia Carlos Drummond de Andrade que se você sabe explicar o que sente, então não é amor. Ah, claro. Também há influências de Nelson Rodrigues. Um forte abraço!

O dia foi péssimo depois de sair de casa. Cheguei no trabalho, a chefe já veio gritando todos aqueles palavrões. E daí se a papelada tá atrasada? O mês mal começou. Vamos ser mais paz e amor, por favor. A culpa não é minha se ela ainda não se apaixonou. Tudo bem que eu perdi um pouco a cabeça. Na verdade, eu me distraí de tudo que não tinha você no meio. Para piorar, o café tava frio. Eu odeio meu emprego.

Na mesma sala onde eu trabalho, tem uma estagiária. Ela é sempre muito na dela. Muito certinha também. Ela nunca soltou o cabelo e está sempre com o uniforme bem passado. Às vezes, eu sinto que ela quer roubar meu emprego. Ela me olha feio, mas, quando eu percebo, ela disfarça. Ela pode até roubar, não me importo. Mas ela não pode roubar minha felicidade. Aliás, minha felicidade está morando na minha casa.

Aquele cara fortão da academia deve estar no meu sofá, numa hora dessas. Talvez comendo cereal enquanto pensa em mim. Ele diz que quer voltar a trabalhar. Não sou nem louca de deixar. Imagina um homem maravilhoso desses socializando com outras pessoas. Não quero nem cogitar. Melhor ficar em casa. Eu posso trabalhar em dobro. Daqui, vou pro meu outro emprego. Está tudo tranquilo. Tudo bem, não muito: eu tô um pouco estressada, mas a noite tudo passa.

Depois do trabalho, eu dirigi apressada para chegar em casa. Eu queria te encontrar. Eu queria despentear seus cabelos e sentir seu perfume. Abri a porta e nosso pássaro nem cantou. Nossa calopsita sempre tão animada nem comemorou. Algo estava errado. Provavelmente, ela já sabia mais do que eu. Eu entrei no nosso quarto. Você não estava lá. Te procurei no banheiro. Cansei de brincar. Onde você está? Eu estou louca para te dar um abraço. Meu Deus, vem logo me contar como foi seu entediante dia!

Será que você saiu? Não faz mal. Eu espero mais um pouco. Já esperei uns 35 anos para encontrar você, então espero mais alguns minutos. Mas, cara, sabe do que eu lembrei? Do nosso primeiro beijo. Eu estava tão nervosa. Eu nunca beijo no primeiro encontro. Contudo, você estava tão elegante que eu não consegui recusar. Você me prendeu completamente na sua fala culta e eu queria muito te escutar.

Dois meses depois, você perdeu o emprego e eu mudei toda minha vida. Você entrou nela e eu estava mesmo na sua. Não quero ser chata. Mas eu sinto que você está demorando. Vou te ligar. Por favor, atende. Isso está me deixando agoniada. Já sei! Quero te fazer uma surpresa… Aposto que você vai curtir minha lingerie nova. Não se apresse, ainda estou me vestindo. Brincadeira, vem logo. Eu já tô pronta. Cadê você que não chega?

Tudo bem, olha só: não estou nada contente. Sério, são uma da manhã e você me deve satisfações. Afinal, sou eu quem paga as contas e divide a cama com você. Vou ligar só mais uma vez e, se você não atender, eu desligo esse telefone e durmo sem você por esta noite. Pelo amor de Deus, atenda! Alô? Amor, cadê… Oi? Juliana?! An? Como assim Ju-li-ana? Espera, de quem é esse número? Passa pra ele! Dormindo? Cansado? Não. Não precisa deixar recado.

Você tirou algo de mim. Ficou algo em mim que eu nem sei explicar. Ficou um vazio transbordando minha alma. Eu pensei que fosse incurável. Eu pensei que nunca mais levantaria da cama. Por três semanas, eu faltei nos trabalhos. Chegaram ligações e eu atendi desesperadamente pensando que era você. Não era. Eu fui demitida. Quem se importa? Eu odiava trabalhar mesmo. Eu quero ficar aqui, esperando você voltar. Eu acho que vou ficar aqui, pra sempre…

A campainha tocou. Mais uma conta. Eles não vão embora até que eu atenda. Eu atendi. COMO ASSIM É VOCÊ? Olha o meu estado! Quer dizer: NEM OLHA. Aliás, eu nem deveria mais estar olhando pra você. Eu não quero ouvir suas desculpas, mas me conta. Você foi procurar emprego. Merda, você o encontrou! Juliana é sua irmã?! Você estava na cidade vizinha amontoado de tarefas. Aham. Nem vou fingir que acredito. Eu quero odiar você. Eu bati a porta na sua casa. Você foi embora. A questão é que você foi, mas o amor ficou. Eu não sei explicar, só volta…

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Autor:

E-mail: blairpttsn@gmail.com Defenda o que você acredita e tenha orgulho por quem você é!

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