Crônica

O café tá esfriando e o amor também

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Você vai deixar pra mais tarde de novo, não é? O café tá esfriando e o amor também. O amor tá meio amargo nos últimos dias. A cama fica bagunçada porque já não faz sentido arrumar se a gente nem vai bagunçar de novo. A gente tá deixando a estação tirar as cores do coração. Estamos nos suportando por medo da solidão.

E talvez a gente precise aceitar que nada é para sempre. Um dia chega um fim, um ponto final ou, se a gente der sorte de novo, uma vírgula. Talvez, você demore umas semanas ou, quem sabe, uns meses para o coração fazer música de novo e te fazer dançar numa terça-feira. E pode ser que nem seja por alguém. Pode ser porque você finalmente recebeu uma promoção no trabalho ou conseguiu comprar o pacote de viagem que você tanto sonhava. O amor não é tudo. O amor sozinho não traz felicidade. A felicidade é uma das coisas que vem de dentro quando a gente se sente suficiente e parece que nada pode ficar melhor naquele momento. 

A gente fica enrolando porque talvez ainda exista algum amor. Me preocupo com você. Me preocupo se você vai conseguir ouvir todos os despertadores que eu coloquei para você não esquecer dos remédios. Me preocupo se você vai lembrar que precisa tomar café antes de correr pro trabalho. Me preocupo se você vai lembrar que era a mulher mais linda do universo quando te conheci e que eu não mudei de ideia até hoje. Espero que você se lembre disso todas as vezes que se olhar no espelho.

Você não precisa deixar pra mais tarde de novo. O amor já esfriou e o café que possa aquecer.

Crônica

O que você não fez por mim

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Naquela tarde, eu tive a certeza que seria a última vez. Seria a última vez que eu deixaria minha mão encontrar a tua.

Você vai mesmo sair assim? Sério? Você não se lembra que eu detesto essa sua camisa? 

Você bateu o pé, falou alto, me sacudiu e não trocou. Não era só pela camisa que você me magoou. Era por tudo o que você já não se importava se eu ficaria feliz ou não. Os passeios que eu não podia fazer parte. As noites nas quais você me evitava. Os lugares que eu preferia ir e nenhum estava na sua lista. Tanto faz se eu continuaria na sua vida.

Não sou alguém de tanto faz. Eu sou intensa demais. E se eu jurar que eu estou amando, ainda que seja num primeiro encontro, vai ser verdade. E se a saudade bater eu atravesso a cidade. E se tiver desejo eu vou pedir mais que um beijo. Um dia desses eu tinha dezoito anos e estava sofrendo pelo primeiro amor. E o tempo passou voando. Vieram tantas pessoas, depois você e talvez mais tantas outras que eu não quero ficar onde o tempo passa devagar.

Eu prefiro o tédio de tentar escolher uma coisa legal pra ver no final de semana do que um cinema frio fazendo de conta que existe ali um casal perfeito. E, pra ser sincera, talvez nem exista casal perfeito. Mesmo se eu te entregasse o mundo, eu continuaria com meus defeitos e minhas manias irritantes e você insistiria na camisa mesmo sabendo que não custa nada trocar. E você ficaria puto porque é só uma camisa. Mas a gente sabe que não é.

Crônica

O que a tua distância fez comigo

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Não sei se nossos olhares se encontrariam outra vez. Porque, talvez, nossos caminhos nunca mais serão o mesmo. E eu ando sempre tão ocupada, com pressa, atrasada para não variar. Eu quase não lembro mais de você. É como uma página que desbotou que eu preciso fazer um certo esforço para lembrar o que escrevi, o que você me fez sentir.

Você ficaria surpreso sobre como o tempo me ensinou a ser paciente e a distância foi o melhor presente que a gente poderia se dar. Ficar tanto tempo sozinha me fez ler os livros que eu estava sempre deixando a poeira tomar conta enquanto tomava conta de você. Aquelas séries adolescentes, aquelas que eu troquei para tentar assistir seus filmes, eu finalmente maratonei sozinha num idioma que você jamais entenderia.

As minhas particularidades, aquelas coisinhas que pareciam bobinhas demais (e que eu fiz de conta que não me fariam falta) eram importantes pra mim. Você não fazia ideia do vazio que eu tava sentindo por não estar sendo completa, inteira, com você. Eu estava sendo metade e me esforçando para deixar você preencher a outra. E a gente não precisava ter se esforçado tanto, né? Uma hora as coisas dariam errado mesmo. A gente tinha tudo para dar errado. É o que eu sempre digo quando perguntam sobre a gente… Mas o começo costuma ser bonito e a gente se deixa levar pelas batidas do coração.

Eu não vou mentir. Eu senti falta do teu bom dia, da tua visita desesperada, da cama bagunçada, das coisas que só os teus olhos tinham conhecido para descrever, de como você me colocava pra cima sobre quase qualquer coisa. O problema é que nossos ritmos eram diferentes. Você não era suficiente pra mim, justamente porque eu consigo me virar muito bem sozinha. E, mesmo assim, eu amava te ter por perto. Entretanto, te ter tão perto me fez um certo mal.

De repente, eu me fechei no teu mundo. Fiquei meio insegura. Deixei um pouco de sonhar. Segui tua percussão. Sei lá. Ainda bem que minha vida voltou aos trilhos. E agora mesmo eu acho que eu sou bem diferente de como quando a gente se deixou. Eu criei tanta coragem por medo de amar de novo. Eu fiquei com tanto medo de me apaixonar outra vez e passar a maior parte do tempo pensando em outra pessoa que tomei coragem para ocupar com todas as coisas que eu sempre tive vontade de fazer. Afinal, eu não tinha mais desculpas de sempre porque, no final das contas, eu já não tinha você.

Acredita que agora eu danço funk três vezes por semana? É verdade. Na segunda, quarta e sexta (e nem fico no cantinho da sala). Quem diria? Ah, e essa nem é a parte mais esquisita. Eu consegui um novo emprego e meu maior sonho não é mais fazer meu mestrado no exterior. O mundo dá voltas e eu decidi ser comissária de vôo. Estou esperando me formar na faculdade primeiro. E até eu posso mudar de ideia de novo até lá. E eu, enfim, estou deixando meu coração procurar o amor de novo. Eu acho que eu só precisava de um tempo. O tempo e distância, às vezes, são o segredo para encontrar amor de dentro.

Crônica, Pessoal

Vinte e um

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Desde criança, eu coloquei na cabeça de que eu queria ser uma mulher adulta aos vinte um. É meio esquisito dizer a minha idade. Eu tenho vinte um (mas ainda tenho a mesma voz que eu tinha anos atrás, talvez o mesmo jeito de falar também e só o cabelo mudou todos os anos). Eu gosto de, no meio de um dia cheio de trabalho, deixar soltar um riso bobo ao lembrar que eu me tornei a mulher adulta de vinte um que eu sonhava aos oito anos.

E, trabalhar num ambiente com pessoas tão bem-sucedidas profissionalmente, me causa um certo desespero para conseguir sucesso na minha carreira também. É que agora eu tenho vinte um anos, um emprego, uma graduação para concluir e uma vida fitness para equilibrar. É muita coisa para administrar e parece que eu nem tenho tempo para pensar em mim e qual o caminho eu deveria tomar. Deve ser por isso que, cada vez mais, eu tenho confiado no destino.

Eu acho que cheguei numa fase que eu aceitei que não basta colocar o pensamento positivo na cabeça. Se a gente pensa tanto, se cobra tanto, a gente acaba se frustrando no final do dia porque a gente não sabe quando o futuro vai chegar. Simplesmente uma hora do dia a gente se dá conta de que ele chegou e daí a gente já tem outros planos. Foi o que aconteceu.

Então, eu tenho preferido respirar fundo e deixar um pouco as coisas irem se encaixando. E quase tudo tem se encaixado até agora. Logo, sempre que uma coisa boa acontece, eu que nem estava esperando, fico mais feliz do que como se estivesse contando os dias, sabe?

Ano que vem, eu preciso decidir o que fazer com a minha vida. É meu último ano de curso. Eu ainda nem tenho certeza se quero deixar tudo para seguir carreira acadêmica ou empresarial. Eu só tenho certeza de que quero deixar tudo e de que aqui o meu coração não acelera como faz quando penso em qualquer outro pontinho do mapa mundi.

Ainda faltam alguns meses para o ano que vem. Eu não quero tomar nenhuma decisão precipitada agora. A vida não vai errado se eu ir com calma dessa vez, né? Eu quero realmente focar nas coisas que mais têm me feito feliz: os idiomas durante o trabalho e a dança no final do dia. Eu amo o curso que eu escolhi e tenho o maior orgulho de contar para todo mundo que eu faço Relações Internacionais, mas ao mesmo tempo dá um frio na barriga e uma ansiedade sobre o que vai ser quando eu terminar.

Crônica

Fermata

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O amor com você foi diferente de tudo, de todos os outros e de todas as outras. Eu poderia jurar que não era acaso. Você precisava ser aquela pessoa especial demais durante a minha fase mais vulnerável. Eu só esperava encontrar alguém que me fizesse acreditar no amor outra vez. E teu amor foi tão importante e continua até hoje me lembrando que todo final pode ser um convite para recomeçar.

Naquela noite, você disse que não sabia mais como enrolar e depois disso a gente não precisou mais disfarçar a graça e esconder a vontade de juntar as almas. Eu podia imaginar assim, pateticamente poético, o nosso beijo e o que vinha depois disso. Mas você também estava vulnerável. A tua ex-namorada tinha te largado na semana passada. Eu me permiti ser profunda para você afogar suas mágoas.

Eu não sei porque te amei tanto. Eu nem sei porque eu chorei no dia seguinte, que você disse que eu era incrível mas não era como tua ex. Eu nem sei. Era supérfluo. Era efemero.  E, depois de você, eu nunca mais consegui ser a mesma. Eu nunca mais consegui cometer o mesmo erro. Eu nunca mais confiei de verdade. Nunca mais me joguei, mas até arrisquei jogar. E, depois de você, eu precisei de uma longa pausa.

Eu não desisti do amor. Mas teu amor deixou um efeito colateral. E, por alguns meses, eu andei confusa e procurei me preencher em romances vazios que me lembrassem um pouco você. Me perdi. Desisti. Prometi que não procuraria mais ninguém até ficar bem, até perdoar o mundo inteiro pelo que você fez comigo. Porque ninguém mais precisaria se sentir machucado pela dor que você me deixou.

Crônica

Que dure enquanto seja livre

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Escrevi ouvindo I Feel It Coming - The Weeknd

Você me diz que admira a minha mente criativa, a minha energia para realizar os meus projetos pessoais e até os sentimentos que eu deixo escapar sem querer – e que são responsáveis pela mudança repentina de cor das minhas bochechas. Você diz que admira tudo isso. Você diz que eu sou jovem e tenho a vida toda pela frente. Você diz que essa vida ao teu lado seria perfeita, que está de acordo com todos os meus planos.

Não quero arriscar, sabe?

Eu concordo com a maioria das coisas que você me disse. Acho tua maneira de me ver a mais gentil. Há um bom tempo que alguém não me lia como verso de poesia. Mas eu sou aquela poesia parnasiana que algumas pessoas podem detestar. Sou perfeccionista e prefiro rimas ricas do que interpretações democráticas. Não quero ser de todo mundo. Quero ser lida por quem sente curiosidade e vai se dedicar mais que alguns minutos para decifrar. Olha eu, de novo, metaforizando minha forma de ver as coisas.

Prazer. Esse é o meu mundo.

Não acredito em vida perfeita. Não acredito que passaremos uns 365 dias sem brigar. Não acredito que você conseguiria passar um mês sem reclamar. Quando te encontro, quero te ganhar. Quero ganhar tua atenção, teu carinho e tuas palavras mais bonitas. É óbvio que você só conhece a melhor parte. Thanks God que você não trabalha comigo. Ainda bem que eu me mantenho offline durante a TPM. Eu sei que ouvir sobre meu comportamento temperamental pode te fazer rir até perder o ar. É engraçado quando não tem ninguém no cenário.

É que eu quero ir com calma. É de paciência que precisamos.

Não quero ninguém jurando que me ama mais que tudo. Não quero um anel de compromisso. Talvez amor livre faça mais o meu perfil agora. Não quero dizer sim tem pensar em todas as outras alternativas. Não quero pressa. Não quero pressão. Não quero prisão.

É que eu não quero a ideia de ter uma vida a dois… Já parou para pensar que seria mais interessante duas vidas e duas pessoas juntas apoiando uma a outra? Tipo cada um com seus sonhos mesmo – e eles nem precisam ser iguais ou depender do outro. Cada um correndo atrás da própria carreira. E um ali pra dar colo quando o dia do outro for uma merda.

Imagina: tem uma passagem baratíssima para África do Sul e notícia nem tão boa é que não está nas suas férias ainda. E você pode me incentivar tranquilamente: pode ir. Não perde essa. Vou sentir sua falta, então não esquece de ligar de vez em quando…

Amor livre me encanta. Não é uma questão de ser eterno enquanto dure. Isso me traz lembrança de intensidade demais. Demais para um relacionamento. Tudo o que é demais aprisiona. Então, que dure enquanto for livre.

Crônica

É como se você não tivesse passado por aqui

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É como se você não tivesse passado por aqui. Não têm suas roupas, desaprendi seu número e arquivei as fotos. É melhor que não procurem por mim nos últimos meses, porque seria como se nada eu tivesse vivido. Ao seu lado, eu estava apenas existindo sem qualquer protagonismo.

Você ocupou cada espaço. Mas não como quem preenche. Foi como um inquilino espaçoso que tirou toda me energia e me deixou apenas um sofá para passar a noite quando eu não te servia bem na cama. Eu sei que eu não tinha a casa mais bonita. As paredes ainda estavam cinzas. Comprei minhas cores favoritas e te convidei para pintar comigo. Mas você não entendeu que azul me trazia alegria assim como a chuva me aquecia o coração. Você deixou as tintas acumularem poeira e sujou o meu lar com suas palavras mal ditas…

Tentei fazer suas malas. Tentei ir te tirando aos poucos de mim. Tentei. Até que me dei conta de que parecia ser eu quem estava atrapalhando a sua estadia. Tinham suas coisas, tinham seu perfume, tinha você. Eu já não me encontrava. Apenas me perdia mais e mais na sua bagunça. Eu sabia que não ficaria tudo bem no dia seguinte depois de tantas outras mentiras.

Eu já não pertencia àquele lugar. Aquele lugar onde eu limpei até os móveis e te esperei chegar na porta. Aquela porta onde eu disse que você era bem-vindo. A porta a qual você nunca mais precisou de mim para abrir. Você ganhou a chave enquanto eu perdi a liberdade depois de você desfazer as malas no quarto. Aquele quarto onde te pedi para ficar à vontade. O mesmo quarto onde eu perdi a vontade de te amar mas continuei fazendo por medo de te decepcionar.

E agora é como se você não tivesse passado pelo meu coração. Não têm suas roupas, desaprendi seu número e eu arquivei as nossas fotos… E eu precisei apontar outra direção para eu reestruturar o meu lar. Dessa vez, as paredes são brancas. Dizem que branco é a mistura de todas as cores. Não é como se estive vazio ou sem cor. É como se fosse uma nova chance para eu finalmente tirar a poeira das tintas que você achou horríveis. Agora não tem mais você para reclamar. E eu acho que eu consigo pintar a minha nova casa sozinha.